O Restaurante Copacabana, na
Praça Garibaldi, no famoso reduto boêmio da Cidade Baixa de Porto Alegre, é
algo assim tão antigo quanto maravilhoso. Ali, o gremista Lupicínio Rodrigues
bebia, cantava e fazias as letras de suas nostálgicas canções. E foi ali que,
entre cervejas geladas e pasteizinhos de carne, numa boa turma de amigos, saiu
esta história do arco da velha...
Como bem sabe o povo brasileiro,
uma boa parte de privilegiados servidores públicos, por este Brasil afora, se
aposenta, antes do tempo previsto, através de sacanagens burocráticas. Um dos
artifícios costumeiros é a boa a velha depressão, tão facilmente comprovada por
charlatães credenciados. E assim, vivem eles gozando a vida e generosamente
pagos pelo povo tupiniquim.
Alcides, solteirão, nem chegando aos cinquenta,
era um desses afortunados depressivos que adorava a dolce vita. Bons uísques,
gosto refinado, turista constante de primeira classe, Alcides morava num belo
apto na Carlos Gomes e, para assar um salmão e receber os amigos, tinha uma
confortável casa na praia de Atlântida.
“A felicidade mora aqui”, “só alegria”, afirmava Alcides, sem remorso
nem pena do contribuinte, expressando o sorriso zombeteiro das raposas.
É claro, que nestas alturas da
história, querem saber os leitores, aonde entram as mulheres no enredo, não é
mesmo?
Pois bem, fora o plural,
poderíamos falar no singular, pois o Alcides tinha, há muito tempo, só uma,
aliás, uma verdadeira boneca de tão linda e perfeita que era. Ela, pasmem, era
literalmente dócil e se poderia dizer, ao exagero, escrava e submissa. Por
essas virtudes, Alcides era perdidamente, desvairadamente, apaixonado por ela.
Pra completar e encher de desejo quem acompanha a história até aqui, ela só
havia pertencido a um único homem na sua vida, o sortudo do Alcides. Linda,
dócil, submissa e fiel, por um milagre, a mulher ideal.
Yoko, essa linda companheira do
Alcides, conhecera o próprio em uma das viagens do amado ao Japão. Lá, tanto
estreitaram o relacionamento que Alcides a trouxe para dividir a vida com ele
no terceiro mundo. Então, noite ou dia, em farfalhantes cetins deitava mansamente
aquela japonesinha. Nada, mais nada mesmo, traria tanto prazer a um homem...
Porém, como nos mostra a
experiência, a felicidade nunca é oferecida com garantia total vitalícia. E
assim foi com o Alcides, para alegria geral daqueles que trabalham honestamente
e não tem acesso a depressão paraguaia.
Coincidiu que o Walmor, um tio
interiorano do Alcides, já com idade bastante avançada, beirando os oitenta,
precisou se hospedar no apartamento do nosso herói, por conta de uns exames
médicos que faria em Porto Alegre. Alcides, ainda que contrariado pela invasão
de sua privacidade, não teve como negar, pois partira o pedido de sua mãe a
quem ele era todo abnegado.
Alcides, de muitas atividades sociais,
pouco parava em casa, a não ser, evidentemente, à noite, pois nestas horas o
“bon vivant” tinha compromissos sagrados com a meiga japonesinha. O Seu Walmor,
então, foi acomodado no quarto da empregada com a intenção de que não
interferisse na área intima do apartamento do Alcides. Assim, com esta
precaução, foram reduzidas as possibilidades de que o velho bisbilhotasse nos
cômodos da casa na ausência do proprietário.
Mas, sabemos todos, que pessoas
velhas são iguais às crianças. Bisbilhoteiros, mexem em tudo quando se veem
sozinhos na casa dos outros. Abrem gavetas, peidam, cheiram roupas íntimas,
experimentam cremes, cospem na pia, enfim, essas coisas que todos faremos algum
dia na vida. Só não se esperava que fizesse o que fez e que tivesse acontecido
uma lamentável tragédia.
O Alcides tinha avisado que
retornaria pra casa quando chegasse à noitinha. No entanto, voltou ele no meio
da tarde e deparou-se com a mais cruel das visões, com o mais doloroso de todos
os pecados: a traição.
Na cama matrimonial, num
flagrante adultério, o Seu Walmor, com aquele esquálido corpo branquelo e sem
roupas, de bunda pra cima, estava entre as pernas nuas de Yoko. A submissa
bonequinha de luxo ficou ali, abobada, sem compreender os gritos alucinantes do
Alcides. Descontrolado, arrancou violentamente o corpo do velho da cama e
esbugalhou os olhos ao perceber que este estava inerte e sem vida. Meu Deus, o
Seu Walmor tinha morrido!
O Alcides, transtornado e
enlouquecido, agride Yoko de todas as formas físicas possíveis, praticamente
dilacerando o corpo da japonesa. Aos berros e chorando desesperadamente sai ele
no corredor do edifício pedindo socorro e afirmando ter matado a Yoko. Os
vizinhos, alertados pelo escândalo, irrompem no apartamento e assistem a uma
cena insólita.
Um velho morto sobre o tapete e na cama,
rasgada e dilacerada, uma boneca inflável de fabricação asiática, a qual o
Alcides chamava de Yoko.
O pior, para o remorso do
Alcides, ainda veio a galope. Os peritos disseram que não houvera penetração e
isso significava que Yoko não fizera, tecnicamente, sexo com o velho. Portanto,
não houvera traição. O Seu Walmor tinha morrido ao exaurir o ar dos pulmões no
momento em que havia acabado de inflar a boneca.
O Alcides, atualmente, gasta o
seu dinheiro numa clinica de recuperação mental. Finalmente, quis o destino,
sofre de grave e legítima depressão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário